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No anular, um anel
Segundo dizem, o escritor deve ler um livro de forma mais intensa, crítica e detalhada do que o faz um leitor comum. Isto, acredito, implica em um tempo maior de dedicação, uma busca quase que obsessiva pelo real significado de cada parágrafo, frase ou palavra. Diante disto, acho que fracassei ao ler " Na noite do ventre, o diamante", de Moacyr Scliar. Digo isso não por excesso de autocrítica, mas por acreditar que todo esse garimpo não seja possível se fazer em pouco mais do que três dias. Tudo bem, isso pode trazer bons olhares para a obra em questão, induzindo a pensamentos como: "Nossa, se ele leu rápido assim é porque deve ser bom’. E é. Ainda não sei se é tão bom quanto "A Magestade do Xingú", mas é bom. O fato é que minha preocupação não é levar as pessoas a comprar os livros deste ou daquele escritor, e sim tentar abstrair o máximo de conhecimento trasmitido por ele, seja pelo assunto ou pela técnica. A divulgação, ele que faça. Ou me pague pra fazer. Mas pra vocês eu conto um pouquinho. A Editora Objetiva lançou uma coleção chamada "Cinco dedos de prosa". Assim, foram chamados cinco autores nacionais para, cada um deles, escrever uma história onde, impreterivelmente, tivessem como inspiração um dos dedos da mão. Ou seja, de alguma forma o tal dedo, já préviamente escolhido pelo escritor, ou imposto pela Editora, deveria aparecer no livro. Como sabemos, são eles o polegar, o indicador, o dedo médio, o anular e o dedo mínimo. O anular ficou a cargo de Moacyr. A princípio seria escrito por Manoel Carlos, mas, por razões que desconheço, o acordo não foi para frente. Portanto, não restou muitas opções para Scliar. Então vejamos: assim que eu soube da história dos bastidores deste livro (que conto mais abaixo), cheguei a pensar que se tratava de um desaforo – estou exagerando um pouco –. Pô, anular? O dedo que ninguém quis, o último a ser escolhido assim como um gordinho mambemba que sempre fica de fora daquela pelada – do jogo e da mulher – na hora do recreio! Tanto dedo bacana, cheio de utilidade… A saber: O polegar, famoso dedão, é sempre o mais utilizado, principalmente para serviços que requerem força, pegada. E mostra humildade, aceitando ajuda dos companheiros em um beliscão, um rosquear de uma long neck. E claro, trata-se do mais sociável de todos os cinco, distribuindo "jóia" para amigos e passantes. O indicador, fura bolo, é enérgico no pedido de silêncio, autoritário quando em riste, mas solícito na indicação de um caminho. Já o dedo médio, sim, o do meio, é o mais ambíguo da turma. Da mesma forma que pode ofender no trânsito, pode, em momentos reservados, ser bastante excitante. Quando em movimentos giratórios, praticamente um artista de circo. Com belas entradas e performances convincentes é capaz de tirar suspiros da ávida platéia. Quanto ao dedo mínimo, vulgo mindinho, o que dizer deste perspicaz amigo das horas de apuros, quando não resta mais esperança, quando seu amigo maior, o indicador, não consegue alcançar catotas nas profundezas do nariz, e ele, prontamente, se coloca a disposição para nos salvar?! No mínimo, que ele é o máximo! Restou o anular, cujo "nome popular" nem sequer me lembro. Não sejam mal educados, mas o que se faz com ele? Coloca-se um anel, apenas. Em uma palestra na Livraria da Vila, São Paulo, Scliar contou-nos da coincidência a cerca do convite. Um livro, não este, já estava praticamente escrito, faltando apenas detalhes, quando o telefone tocou. Depois de muito contar, a editora da Objetiva ouviu um sonoro não, tendo a explicação de que o autor estava com outros planos como resposta. Após alguns instantes, um insight. Qual era mesmo o dedo? Moacyr ligou de volta e, ao saber que este seria o anular, disse: "Aceito". Não sei exatamente qual era a história original, mas parece que apenas alguns ajustes foram feitos, como incrustar o diamante já existente a um anel. E levar este ao dedo anular. Vamos à história. Ela começa em 1662, numa remota vila de Minas Gerais. Em uma caverna, tida como promissora no ramo de minérios, um diamante foi encontrado e secretamente levado para Holanda por um cristão-novo, este perseguido por um agente da Inquisição. Passado um certo tempo, a pedra é roubada e levada para a Rússia, onde se torna herança de família. Diante da Revolução Russa de 1917, tomaram a decisão de fugir para o Brasil. Temendo os assaltantes na fronteira, os pais daquele que tornar-se-ia o personagem principal do livro, obrigaram-no a engolir, juntamente com seu irmão mais novo, o diamante e o aro do anel, respectivamente. Por obra do acaso, Gregório fica com o diamante preso em seu intestino, enquanto o aro é devidamente devolvido pelo caçula, gerando um grande drama familiar. Anos mais tarde, Gregório, já um adulto, busca rufúgio no Arraial da Cabra Branca, cidade onde tudo começou. Lá inicia um caso de amor, procura respostas na mina de onde saiu a pedra e nos leva a um final totalmente inesperado. Confesso que não "pesquei" de primeira. Não sei se nem da segunda vez. Porém, a mensagem que em mim ficou foi simples, clara e objetiva. A escolha de Moacyr Scliar para fazer parte da coleção "Cinco dedos de prosa" coube como uma luva. Mas não de pelica.
Escrito por Guilherme às 12h26
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A Galáxia é nossa
"O Universo pode ter filhos, diz cientista" Folha online – 29/09/2005
Dr. Bento andava muito ausente nos últimos dias. Precisava concluir aquela que tinha tudo para ser sua principal invenção: a utilização do baço como orgão reprodutor. Universo, o cãozinho da família, sofria de um grave problema peniano. A atrofia, que levara seu pênis à quase inexistência, castigava demais o orgulho de seu dono, levando- o a uma busca frenética por alternativas. Na falta do prazer proveniente do coito, daria à seu amigo ao menos a satisfação de ser mãe. Ou pai. E profetizava: – Já que ele não pode meter nem na mais minúscula e insignificante xoxota do reino animal, farei dele o primeiro macho do mundo a parir. Por tempos os filhos de Bento temeram pelo seu estado psíquico, chegando, inclusive, a encomendar ao pároco local uma daquelas repentinas visitas a que estava acostumado a fazer pelos arredores. O encontro nunca pôde acontecer, já que, segundo o sacerdote, de nada adiantaria a conversa no agitado ambiente de trabalho, de onde pouco saía o cientista. A situação se agravou quando, numa noite quente do verão paulistano, ao se levantar de madrugada em busca de um copo d’água, Pedro, o filho mais velho, não encontrou o animal em seu tapete de dormir. Uma rápida varrida de olhos pelo pequeno apartamento levou-o a uma óbvia dedução. Sua mãe saiu as pressas em direção ao Bento’s Lab decidida a trazer o marido de volta e encerrar aquilo que julgava ser devaneios da terceira idade. Na sala principal, tendo passado por um longo corredor de paredes verdes descascadas, levou um susto. Universo tinha em seu saco escrotal fios de alta tensão, a língua dependurada pelo canto da boca e o corpo denunciando estafa, largado sobre uma mesa prateada. – É para estimular a ejaculação – apressou- se na defesa, o cientista. Porém, não só o (quase) invisível pênis tinha sido afetado, mas, ao que tudo indicava, também os testículos. Nem uma só gota de esperma pôde ser coletado. – Está vendo mulher, tentei de tudo, portanto estou seguro de que a única saida será mesmo o baço – sentenciou. E aconteceu. Universo estava gravido. Desde então passou a receber cuidados especiais, como alimentação balanceada, aumento das horas de sono e exames periôdicos. Por motivos desconhecidos, Bento se recusava a entrar em pormenores com relação ao paradeiro e estado de saúde do cão, limitando-se a dizer que apenas passava férias em outro lugar. E foi assim até o fatídico dia. A família toda estava postada ao lado da mesa prateada enquanto Dr. Bento fazia a intervenção cirúrgica – óbvia em se tratando de um espécime masculino –. Entre enjôos e vertigens, coube a Pedro o cargo de instrumentador. Mãe e filho caçula se abraçavam de olhos fechados a poucos passos da ação. Para surpresa de todos, apenas um filhote fora gerado. Uma fêmea, na verdade. Preta, com muitas pintas brancas ao longo do corpo. – Vejam, não é uma graça? – perguntou o divisor de águas. – Nossa, papai, parece aquela foto do espaço que tem no livro de ciências – espantou-se o menor. – Pois é uma observação muito bem feita, filho. Porém, não é apenas o espaço. É a Galáxia. Que agora é nossa.
Escrito por Guilherme às 18h21
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Toma lá da cá
Você é teimosa. Surpreendentemente teimosa. Mesmo te penteando com carinho e malícia você insiste em me confrontar. te mando para longe, peço para que se afaste, mas quando vejo, aqui está você de volta. Será possível que não dá para entender que do meu lado não quero que fique? Não vem com essa história de que ele também não te quis. Pare de ser intempestiva e vá para o outro lado. E não pule. Caia e corra, fuja dele. E se por ventura voltar a falhar e do meu lado novamente cair, seja boa, não se afaste. Venha com vagar, sem pressa. Prometo com carinho te bater. Mas que desta vez seja um golpe vencedor, um winner vindo direto de Roland Garros.
Escrito por Guilherme às 14h43
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Quem planta, colhe.
A primeira coisa que fiz ao descobrir o e-mail do escritor Raimundo Carrero foi, claro, escrever para ele. Elogiei seu último livro, "Segredos da ficção", e disse lamentar não poder fazer a oficina literária que ele ministra há anos, digamos, por problemas geográficos. O curso é em Recife e eu moro em São Paulo. Para minha total surpresa, no dia seguinte recebi sua resposta dizendo estar a disposição para me ajudar, lendo meus textos e comentando- os. Ah, tá, me engana que eu gosto. Cara simpático, mas pouco sincero, pensei. Pois mais uma vez me espantei ao receber alguns breves, mas diretos comentários. O autor se mostrou atencioso e solícito em todos os momentos, gerando em mim um profundo sentimento de gratidão e curiosidade para saber mais sobre "este tal de Raimundo Carrero". Resultado, na primeira oportunidade que tive comprei "Somos pedras que se consomem", livro escrito em 1995. Tendo recebido os prêmios Machado de Assis da Biblioteca Nacional e o Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de críticos de Arte APCA e ainda eleito um do dez melhores livros do ano, o romance foi escrito todo ele em cima da constante preocupação do autor com a crescente violência em nossa sociedade, inclusive a infantil. Toda esta tensão é percebida a cada página, não só pelas cenas descritas, mas principalmente pela narrativa ágil, direta e cruel. Uma história repleta de traições, sadismo, masoquismo, sexo, lesbianismo, homosexualismo, masturbações. Um livro forte de um autor de extremo talento. Abaixo transcrevo dois trechos que reforçam minhas palavras.
"Ísis comprou uma nova barra de chocolate no fiteiro da calçada. Procurou o sanitário. Siegfried sentara- se numa poltrona da portaria. A mãe e Leonardo acertavam as contas com a recepcionista. Fechou o sanitário por dentro. Olhou cuidadosamente as paredes brancas. Não havia perigo de ser vista. Tirou o vestido e abaixou a calcinha. Com uma unha cortou a coxa – o sangue descendo em filete. Molhou o chocolate na pia. Untou o sexo de sangue e de chocolate – o prazer da dor e da masturbação. À maneira que proceguia sujava- se toda, comia e se sujava. Lambuzava- se. A busca enfeitiçada da loucura, da paixão, da agonia. Gemia. Mordia o chocolate. E os dedos, arrancando mais sangue da coxa. Abafava os gritos na garganta. Esfregou a mão suja no rosto. Olhava- se no espelho. Passava os dedos na boca e depois na vagina, o prazer redobrado, o cão que morde os seios, sufocada, mas prazer do que com homens, não queria recordar Siegfried nem Leonardo nem a mãe fedendo a urina, a suor e a uísque, só prazer, o prazer que fazia as pernas dobrarem, os pelos umidecidos. Caretas no espelho, queria ver- se sofrendo e gemendo, como ficaria diante de um homem?, fechava os olhos, costantemente abria os olhos e abria os olhos, mordia os lábios, os dedos, deixava- se penetrar, até sentir o sangue esvaindo- se pelo corpo inteiro. Sentou- se no chão, respirava forte. O suor e o calor. O chocolate. Ah, o chocolate!"
" … agora você me bata, me domina, Ísis falando, ouvindo os gemidos que vinham lá de baixo, soltando os braços de Melissa, as algemas, e Melissa dizendo quero que você agora chore, grite, se lamente, segurou um pênis de plástico, antes as duas trocaram um beijo na boca, mordendo, Ísis deitou- se, e depois as pernas abertas, também amarradas, Melissa amarrou o pênis no corpo, Ísis sentiu o pênis penetrando, você me arrebenta, Melissa, você me mata filha da puta, o que é que você é mesmo, Melissa, … … você é uma grande filha da puta, e é um prazer de mulher, você é que é, Ísis, um grande mulher, deixou o pênis enfiado e deu- lhe chicotadas no peito, os seios ficando roxos…"
Forte, não?
Escrito por Guilherme às 11h56
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Síntese perfeita
Tentarei o impossível. Falar de Gabriel García Márquez sem chover no molhado. Visitar lugar comum. Por incrível que possa parecer – para mim é absurdo –, nunca lí um livro dele. Só páginas aleatórias, perdidas. Passeando pelas livrarias . Matando o tempo. Imbecil. Mas não a ponto de desconhecer sua genialidade. Abaixo transcrevo um pedacinho do novo romance, "Memórias de minhas putas tristes". Em um simples parágrafo, uma síntese perfeita do que se lerá em páginas vindouras.
" Levantei- me às cinco, inquieto porque minha crônica dominical deveria estar na mesa da redação antes do meio dia. Fiz minha deposição pontual, ainda com os ardoresda lua cheia, e quando soltei a corrente da água senti que meus rancores do passado foram- se embora pelos canos. Quando voltei fresco e vestido ao dormitório, a menina dormia de barriga para cima na luz conciliadora do amanhecer, atravessada lado a lado na cama, com os braços abertos em cruz e dona absoluta da sua virgindade. Que Deus a conserve, disse a ela. Todo o dinheiro que me sobrava, o dela e o meu, pus no travesseiro, e me despedi para sempre e nunca mais, com um beijo em sua testa. A casa, como todo bordel ao amanhecer, era a coisa mais parecida com o paraíso. Saí pelo portão do pomar para não encontrar ninguém. Debaixo do sol abrasador da rua comecei a sentir o peso dos meus noventa anos, e a contar minuto a minuto os minutos das noites que me faltavam para morrer."
Brilhante.
Escrito por Guilherme às 18h43
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Primeira vez
– Vem, meu amor. Abra sua boca, abra. – Ai, eu tô com medo. – Mas que bobagem. Vamos, abra a boca que eu coloco. Isso, mais um pouquinho. – Eu não sei, é muito grande e … – Você me prometeu que desta vez não iria dar trabalho. Vamos fazer o seguinte, você coloca. Segure com as pontinhas dos dedos. Isso, agora… – Nossa, como é largo… – Vai, põe sobre a língua e depois faz o que te falei. Cuidado com os dentes. Isso, assim mesmo. – Ai, tá saindo um negócio de gosto ruim. O que eu faço? – Engole, não vá cuspir de novo. Vamos, engula. Isso, muito bem. Como foi? – Mais ou menos. Pegou um pouco na garganta mas não foi tão ruim quanto pensei. – Parabéns. Dê um beijo aqui na mamãe. Agora volta para a cama que você está fervendo. Amanhã te dou outro comprimidinho destes. – Posso ver tv só um pouquinho? – Pode filha, pode.
Escrito por Guilherme às 15h16
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Agressão desmedida
Ela foi embora. Bateu em mim e se foi. Cai para trás, de costas. Lembrei dos avisos da minha mãe – "Tome cuidado com ela. É perigosa" –. Porque os filhos nunca escutam os conselhos dos pais? Demorei, mas consegui sentar. Indignado. Nem se quer parou para me ajudar a levantar. Chorei de susto. De raiva. De tristesa por ter arrancado meus óculos. E meu copo de Guaraná. Fiquei alí, largado na areia da praia envolto aos restou dela. Espuma branca. Que logo sumiu. Nunca mais dei as costas para uma onda.
Escrito por Guilherme às 16h14
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O ataque das orelhas
Perturbado como deve ser um súbito despertar, mal soube onde estava. Havia adormecido com o "Vôo da madrugada" de Sérgio Sant' Anna sobre mim. Estava determinado a ler até o último conto. Não consegui. Deixando o livro sobre meu rádio- relógio prometi continuar a leitura logo pela manhã.
Esta cena demostra bem o que vem sendo minha vida nos últimos anos. Leio até meu sono chegar, e quando chega faça planos de voltar a ler o mais breve possivel. Mas nem sempre foi assim. A maior parte dela foi preenchida com muitas histórias criadas por uma cabeça sonhadora, divagando entre o real e o fantasioso. No papel? Não, no papel não há registro algum. Só cartas de amor. Que se foram. Ambos. Hoje amo de verdade, e por sorte ainda não acabou. As cartas não escrevo mais, agora só e-mails. De amor, de carinho, de alerta. Um simples aviso. Escrevo muito, sem muito dizer. Talvez por nunca ter adquirido o conhecimento suficiente encontrado nos livros. Como disse, minhas histórias são muitas, mas pouco conheço a dos outros. Defeito meu. Às vezes quero recuperar o tempo perdido – sempre atolado em devaneios e reflexões idiotas – em prazos irrisórios. Prova disso é não conseguir entrar em livrarias sem nada comprar.
Neste último sábado fui à Livraria Cultura. Muitas pessoas já me disseram que se sentem bem, ali, entre livros. Não entendo. Não há uma única vez em que não me sinta angustiado. Ando sem parar. Converso com vendedores. Ora estou nos lançamentos, ora nos antigos. Olho tudo. Quando decido por um, pego. Leio a contra capa, sinto a textura, checo a orelha. Engraçado este nome. Qual a função dela se não a de instigar a leitura através de um breve arranjo de palavras? Persuasão? Parece- me estranho chamá- la assim, pois trata- se de um orgão – pelo menos o que conhecemos – incapaz de ser persuasivo, mas, no máximo, passível de ser persuadido. Não seria mais lógico chamar de boca? Ou gogó? A questão é que desde que descobri este enorme furo, típico dos produtos Tabajara, passei a tomar certos cuidados.
De frente para a livraria já citada, comecei um processo meditativo visando melhorar minha auto confiança, acreditando assim ser capaz de suportar o ataque das "orelhas persuasivas". Fortalecido, entrei com ginga de malandro, cantando "Não tô nem aí", sucesso brega do último verão, mas bastante adequado ao momento. Antes de sair pedi para o rapaz do caixa passar a compra no RedeShop.
Ultimamente venho alimentando uma rotina bastante agradável. Diariamente visito blogs de literatura como este. É muito interessante perceber os diversos caminhos que cada um começa a trilhar. Ou que já vem galgando há muito. Em um deles, Eduardo Baskizin chamou- me atenção por sua escrita simples, direta, de poucas palavras e muitas imagens. Interessante. Já Marcelino Freire, escritor pernambucano, acumula muitas experiências, tendo morado em várias partes do país. Trás para sua literatura maturidade e uma linguagem própria, sua voz narrativa.
Perceber a quantidade de livros – e agora blogs – ainda por serem lidos me intimida. Como disse Miguel Sanches Neto no livro "Herdando uma biblioteca", você compra os livros mas não o tempo de lê- los. Que pena!
Escrito por Guilherme às 14h47
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À sarjeta
Eu poderia ter feito qualquer coisa, saido sem dizer nada, mas nunca o que fiz. Tentei me controlar, mas não pude. Saí a procura de sossego,andando por calçadas estreitas, chutando latas vazias até chegar à minha querida sargeta. Foi lá, há pouco mais de dois anos, que a conheci. Vou sempre que temos problemas na relação. Geralmente de nada serve, mas onde mais poderia aquietar meu espírito?! Comodista que sou, penso ser melhor continuar com a certeza da ineficácia do método a criar mais dúvidas sob um desvelo duvidoso. Acabei retornando ao apartamento 66 na esperança de ver a situação modificada. Temeroso, caminhei lentamente até o quarto. Ela, de pernas abertas, continuava dormindo confortavelmente sobre ele. Não sei mais a que recorrer. Já deixei a maldita sem comer, tranquei– a no quarto, disse poucas e boas. Não importa o que eu faça, sempre encontro minha gata persa sobre meu travesseiro importado de plumas. Agora, sujo de sangue.
Escrito por Guilherme às 20h06
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Sejam bem vindos!
Estou muito contente com a visita de vocês. Este espaço será dedicado à literatura, onde postarei textos de autoria própria como crônicas e contos. Farei, vez ou outra, comentários de livros, filmes e afins que tenham me tocado de forma mais profunda. Por favor, adicionem seus comentários. Desde já agradeço. Nos veremos...
Escrito por Guilherme às 15h44
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